Livro Animais arquitetos, de Juhani Pallasmaa

29/02/2024 por Redação SustentArqui

O ser humano não é o único arquiteto animal. Praticamente em todo o reino animal, pode-se encontrar, em certo grau, hábitos de construção, e as espécies com maior capacidade construtora estão distribuídas em todos os filos, desde os protozoários até os primatas. Assombrado desde criança pelo trabalho arquitetônico de outros animais, Juhani Pallasmaa repassa no livro Animais arquitetos a atividade construtora de inúmeras espécies, com foco nas funções desempenhadas por estas arquiteturas e em seus métodos construtivos.

O texto nos convida a rever o trabalho arquitetônico do ser humano à luz das criações do resto dos seres vivos e a mergulhar na essência de uma atividade animal em que a invenção e o perfeccionismo são regidos pelas mais básicas necessidades vitais.

LIVRO animais_arquitetos

Muitas descobertas sobre as estruturas e funções das construções animais constituem maravilhosos exemplos de causalidade e perfeição. Após milhões de anos de evolução e adaptação, a luta implacável pela sobrevivência fez com que as construções animais correspondessem perfeitamente às condições de vida. De acordo com as rigorosas leis de economia e eficiência que regem essas estruturas, o trabalho e os materiais nelas empregados são reduzidos ao mínimo.”

As construções animais são estruturalmente seguras, e tanto suas formas como o uso dos materiais foram aos poucos sendo otimizados pela lei da seleção natural. A estrutura dos favos verticais das abelhas, por exemplo, é constituída por duas camadas de alvéolos unidas pela parte de trás, nas quais a posição dos compartimentos é deslocada em meio alvéolo, o que dá origem a uma estrutura tridimensional corrugada e continua, formada por unidades piramidais na superfície de união.”

“Nós consideramos as construções animais como curiosidades; os livros infantis costumam representar os animais vivendo em miniaturas de casas humanas, com móveis e objetos em tamanho reduzido. No entanto, até mesmo estudos superficiais revelam complexidades e engenhosidades inusitadas nos padrões de vida de espécies animais inferiores, inclusive. Atualmente, acredita-se que as construções humanas mais antigas tenham cerca de 1,8 milhão de anos (as estimativas variam muito), ao passo que foram encontradas aranhas com órgãos fiadores preservadas em âmbar por 300 milhões de anos.

Essa é uma enorme vantagem evolutiva para a aranha e, de fato, a teia de aranha tem uma resistência à tração significativamente maior que a do aço, nosso material de construção mais resistente. Enquanto escrevia este prefácio, li a notícia de que a Aalto University, em Helsinque, está produzindo seda de aranha sinteticamente com base em sua sequência de DNA (Helsingin Sanomat, 13 fev. 2023).


Esse é um exemplo da verdadeira “arquitetura orgânica”. A combinação da seda de aranha sintética com a celulose produz um material extraordinariamente forte, que não existe na natureza. A fronteira antes clara entre o natural e o artificial está começando a desaparecer, mas essa fronteira já foi atenuada ao longo de toda a história e no mundo todo em muitas culturas indígenas ecologicamente sensíveis, como a dos povos americanos nativos.”

“Essa condição autoproclamada tem sido cada vez mais questionada, entretanto, pelas descobertas científicas das últimas décadas. O próprio Universo está se expandindo a uma velocidade vertiginosa e, hoje em dia, os cosmólogos falam até em Multiverso. O conhecimento humano continua a crescer, mas, ao mesmo tempo, o alcance e a necessidade de conhecimento crescem mais depressa. Um conceituado astrônomo admitiu recentemente que, quando ele iniciou seus estudos na astronomia, estimava-se que quase a metade do Universo fosse conhecida. Hoje, quarenta anos depois, acredita-se que menos de um por cento seja conhecido. À medida que aprendemos mais coisas sobre a vastidão do Universo, nós, seres humanos, vamos encolhendo cada vez mais em nossa importância relativa.”

Juhani Pallasmaa, em Animais arquitetos

Sobre o autor do livro Animais arquitetos:

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Um dos grandes pensadores contemporâneos da arquitetura, o arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa (1936) foi diretor do Museu de Arquitetura da Finlândia e lecionou na Universidade Politécnica de Helsinque, além de ter sido professor convidado em escolas de arquitetura por todo o mundo. Autor de livros e artigos – além de uma série de exposições, com a que deu origem a este livro –, com uma visão cultural, filosófica e multidisciplinar, tornou-se autor obrigatório para os interessados na teoria da arquitetura e em temas afins.

Ilustrações: W. F. Keyl e E. Smith
Tradução: Maria Luisa de Abreu Lima Paz

Editora Olhares

Veja também: Livro Paisagismo sustentável para o Brasil

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